Há tempos não escrevia. Não escrevo quando estou feliz. Nem você. Acho que foi por ver o que você escreveu. Queria que fosse sobre mim, como aquelas poesias que eu pude ver mesmo quando você tentava me impedir. Não deve ser, contudo. Olhei seus retratos. Olhei os retratos dela. Me pergunto o que foi sobre vocês que não pôde dar certo. Eu não a procuro, não deveria. Não é por ciúmes, nem por desejo, longe disso. É porque ela é a epítome da minha incompetência. Assim como você. Assim como todo o resto.
Você se casa com uma loura. Ela permanece em dívidas. Eu fracasso continuamente no que tento me convencer que sei fazer.
As coisas continuam na mesma.
Lembra-se quando você se levantava do banco e eu pegava nos seus desenhos? "Tracer". Arte final não é arte de verdade. História das Religiões não é História de verdade.
A verdade é que, de todas nós, eu era a mais estável. E eu era sempre a segunda opção de todas vocês. Até que eu joguei uma bomba nuclear na única coisa estável que existia. Joguei uma bomba nuclear. Eu olho para ela e penso por que diabos eu fui tão estúpida, tão incompetente, tão megalomaníaca ao ponto de achar que tudo, tudo podia ser solucionado por mim.
E eu olho para você e sinto inveja. Do seu talento, da sua coragem, do seu otimismo.
Eu podia pegar um ônibus... podia pegar um ônibus e ir me abrigar na cama sobressalente de alguém, na cama de alguém. Como um favor. Você mesma, me fazia um favor de estar por perto. Você tinha repulsa, não tinha?
A verdade é que eu não era suficiente. Nem para uma contensão de despesas, nem para um dia sem correr na Lagoa, nem para a sobriedade, nem para a higiente, nem para a estabilidade.
Eu não sou suficiente.
Mas todos vocês dizem a mesma coisa. E não pode ser verdade. A mulher da vida de alguém. Justamente. A concubina de alguém. Os horários encaixados. Os recursos disperdiçados. A segunda e nem tão insatisfatória opção.
Vocês todos gostavam muito de me comer mas não se preocupavam em se assegurar que eu não estava tendo pesadelos. Bom, ela o fazia. Mas isso faz tempo demais e eu acho que nem sei mais como é.
Orfeu.
Eu falei de Orfeu mas estava falando de você. E dele. Todos vocês. Elas eram sempre opulentas, fartas. Mas vazias também. Secas. Orfeu. Lembre-se de Fedro, é o que eu me dizia o tempo todo, e eu sempre esquecia.
Por algum motivo, eu sempre me esquecia.
Eu podia pegar um ônibus, mas não tem mais ninguém por lá. Eu vou congelar naquela cidade, e eu me digo que tenho fibra o suficiente pra isso. Ela dizia sempre o quanto eu sou covarde. Ela sempre teve razão, e tinha os motivos dela.
Mas eu escolhi essa amputação, não escolhi? Como quem dissesse "vês o que eu sou capaz de fazer"? E por alguém que eu nem admirava. Aliás, quem no mundo você admira?
Você admira os artistas.
Mas você só sabe fazer a arte final do desenho dos outros. Como artista, como intelectual, você é uma verdadeira piada.
Não sei nem porque você chora. Cassandra, você já não antevê todas essas desgraças? Qual o surpresa, então?
Detesto meu nome. É uma puta mentira. Eu jamais mudei a vida de ninguém. Não é agora, que ele não faz mais sentido, que isso vai começar a acontecer.
É só ele que eu quero. Mas eu não sou suficiente para ninguém, nem para ele.
Quando você morrer, eu vou me sentir culpada, mesmo. Tanta gente não se importaria em estar no meu lugar. Mas eu vejo você envelhecer, e eu vejo você morrendo, e eu não faço nada. Porque foi você que me fez assim, uma negação de gente, a segunda opção em todas as situações, a concubina preferida, mas sempre uma concubina. A culpa disso é sua. Ele vai embora e a culpa vai continuar sendo sua. Se você tivesse me amado normalmente, eu não me importaria com nada. Mas você me amou como se eu fosse inquebrável, como se eu fosse um modelo pra você. Eu nunca fui, contudo, suficiente para que você visse que a frágil era eu e que eu quebrava, sempre, o tempo todo.
Ele vai embora e a culpa vai continuar sendo sua.
Quanto a você, eu espero que venha e não me procure. Não esfrega na minha cara a lástima de pessoa que eu sou. Vem, faz o que você tem que fazer, mas não me procura. Eu peço que venha, mas eu sou uma pessoa horrorosa, não me dê ouvidos. Me abandona. Em você, eu vejo minha parte mais cheia de esperanças querendo se libertar do monstro que eu sou.
Thursday, September 18, 2008
Thursday, January 31, 2008
Você gosta de arriscar, essa é a verdade.
Quer conversar com ele porque é o único como você... até deus.
Porque são amantes e ninguém precisa se preocupar com isso.
Porque o mar parece ter suas distâncias diminuídas.
Porque você se cala quando não devia. E diz bobagens a maior parte do tempo.
Ele não sabe o que fazer a respeito de você, que está perfeitamente ciente disso.
Ele não sabe quem você é, ele é algo diferente.
Ambos esquecem-se e afogam.
Se ele estivesse aqui, diria para você flutuar. Viver é bom, ele diz... um deleite.
O mar. Duas costas que não encaixam-se. Sons. O meu desejo retalhado em 20.000 pedaços. E algo para lembrar o tempo todo de que eu posso ser assim.
Se ele desaparecesse, não haveria nada (ou quase nada para lembrá-lo). O que produz uma lembrança? Qual a matéria do desejo?
Você não sente falta de nada, mas de flutuar.
Shiva abraça sua amada, e ela é o mundo inteiro. Ele não a retém. O mundo não abraça nada. Ela ama.
"Todos os homens do mundo são você, não há motivo para exclusividades", é o que diria. Diria. Mas faz o contrário. Um contrário mórbido, nada entre Lisboa e a areia clara que tanto a incomoda.
Ninguém é cristão o suficiente. Nem insuficientemente.
Quer conversar com ele porque é o único como você... até deus.
Porque são amantes e ninguém precisa se preocupar com isso.
Porque o mar parece ter suas distâncias diminuídas.
Porque você se cala quando não devia. E diz bobagens a maior parte do tempo.
Ele não sabe o que fazer a respeito de você, que está perfeitamente ciente disso.
Ele não sabe quem você é, ele é algo diferente.
Ambos esquecem-se e afogam.
Se ele estivesse aqui, diria para você flutuar. Viver é bom, ele diz... um deleite.
O mar. Duas costas que não encaixam-se. Sons. O meu desejo retalhado em 20.000 pedaços. E algo para lembrar o tempo todo de que eu posso ser assim.
Se ele desaparecesse, não haveria nada (ou quase nada para lembrá-lo). O que produz uma lembrança? Qual a matéria do desejo?
Você não sente falta de nada, mas de flutuar.
Shiva abraça sua amada, e ela é o mundo inteiro. Ele não a retém. O mundo não abraça nada. Ela ama.
"Todos os homens do mundo são você, não há motivo para exclusividades", é o que diria. Diria. Mas faz o contrário. Um contrário mórbido, nada entre Lisboa e a areia clara que tanto a incomoda.
Ninguém é cristão o suficiente. Nem insuficientemente.
Monday, November 12, 2007
Saturday, September 29, 2007
Você se impressiona com a irregularidade dos meus e-mails... é a forma que tenho de tentar conquistá-lo. Quero parecer um mistério, quero que procure por mim e não me encontre. Quero que sinta minha falta. Sim, quando escrevo falo sobre muitas coisas. Se o fizesse com maior freqüência, teria pouco a dizer e te entediaria. Quero que vc pense que eu tenho uma vida - de fato, eu a tenho. Uma vida que não é, apenas, lembrar, todos os dias, todos os momentos, dos seus cachos, dos seus olhos, de como és lindo nu e como és capaz de me fazer rir por bobagens, coisas tão tolas. Lembro o tempo todo, é por isso que me afasto. Lembro-me da tua voz e, quando leio o que me escreves, ouço as palavras como se estivesses frente a mim, novamente entre minhas pernas, a desenhar paisagens entre meus seios. Sinto inveja, quero ser você. Sinto saudades daquelas manhãs, tão poucas, tão infinitas...
Adoro o seu nome, lembro-me, inclusive, do seu cheiro - eu, que não sinto cheiros. E me perfumo para você antes de dormir com outros homens, para compensar o tempo de espera até que cruzes, novamente o mar e digas se me queres ou se devo esquecê-lo.
Com você, eu teria uma biblioteca, primeiro, depois os filhos. E nos alimentaríamos apenas daquilo que, ambos, sabemos ser correcto. E você traria à tona o melhor em mim e eu poderia falar de política.
Com você, eu poderia usar minha camisa azul sempre que quisesse. Poderia não ser perfeita o tempo todo e admitir que não, não li este livro que tanto te impressionou.
Sempre soube que você se tornaria bom e belo. Jamais, contudo, pensei impressionar-me de tudo, tudo a seu respeito.
Beijo-o, em segredo. E espero que cruzes logo o mar. Todo, todo este mar.
Adoro o seu nome, lembro-me, inclusive, do seu cheiro - eu, que não sinto cheiros. E me perfumo para você antes de dormir com outros homens, para compensar o tempo de espera até que cruzes, novamente o mar e digas se me queres ou se devo esquecê-lo.
Com você, eu teria uma biblioteca, primeiro, depois os filhos. E nos alimentaríamos apenas daquilo que, ambos, sabemos ser correcto. E você traria à tona o melhor em mim e eu poderia falar de política.
Com você, eu poderia usar minha camisa azul sempre que quisesse. Poderia não ser perfeita o tempo todo e admitir que não, não li este livro que tanto te impressionou.
Sempre soube que você se tornaria bom e belo. Jamais, contudo, pensei impressionar-me de tudo, tudo a seu respeito.
Beijo-o, em segredo. E espero que cruzes logo o mar. Todo, todo este mar.
Thursday, August 09, 2007
Jamais me ocupei da extensão deste mar. "Tanto mar, tanto mar", ele canta, contudo, toda essa imensidão era-me indiferente.
É absurdo falar sobre saudade? Uma palavra exclusiva ao nosso idioma, tão trágico. Tão pouco tempo é suficiente para dizer "me fazes falta"? Tempo tem algo a ver com isso?
Escavações entre os meus seios e música das minhas nádegas. Eu ria.
Conversas absurdas que provavelmente, não entretêm outros senão aqueles que são capazes de realizá-las até mesmo quando um se torna o lado de dentro e o outro, o lado de fora do primeiro.
Eu ria. Acariciava os seus pêlos e achava-os engraçados e lindos ao mesmo tempo.
E falei sobre os seus cílios... que coisa estúpida, falar assim, sobre cílios.
Saudade de que se jamais nos conhecemos?
Deus sabe o que sentirei a respeito quando os dias se passarem... e ele sabe, também, o quão feliz me fizeste, em tão pouco tempo. Não é, contudo, responsabilidade tua. É minha, é minha esta felicidade. Perco o medo novamente, perco o pudor. Redescubro meu talento e abro as pernas para que todas as palavras sejam sentidas corretamente.
Eu ria, como não ria fazia muito tempo.
Quero que retornes? Não sei, durante alguns momentos, quero. Noutros, penso ser, assim, uma história mais interessante. Ou, por outro lado, que podes deixar de me entreter e eu, de te admirar.
Se desejo que retornes, em algum momento terei alguma idéia a respeito disso.
Sei, apenas que, agora, parece-me tanto mar e, ao mesmo tempo, tão pouco mar.
Afinal, quanto mar?
Agarro-me com força ao teu corpo, ainda, em pensamento. Se fôssemos franceses, eu poderia dizer "Moi, je t'aime". Mas não somos e, nesta situação, seria uma afirmação completamente absurda. Te desejo, é uma verdade, deus sabe quais são as outras.
Na água quente imagino-te do outro lado, como se fosse, todo aquele mar, tão pouco, tão pouco mar.
Por que, agora, ocupo-me tanto deste mar?
É absurdo falar sobre saudade? Uma palavra exclusiva ao nosso idioma, tão trágico. Tão pouco tempo é suficiente para dizer "me fazes falta"? Tempo tem algo a ver com isso?
Escavações entre os meus seios e música das minhas nádegas. Eu ria.
Conversas absurdas que provavelmente, não entretêm outros senão aqueles que são capazes de realizá-las até mesmo quando um se torna o lado de dentro e o outro, o lado de fora do primeiro.
Eu ria. Acariciava os seus pêlos e achava-os engraçados e lindos ao mesmo tempo.
E falei sobre os seus cílios... que coisa estúpida, falar assim, sobre cílios.
Saudade de que se jamais nos conhecemos?
Deus sabe o que sentirei a respeito quando os dias se passarem... e ele sabe, também, o quão feliz me fizeste, em tão pouco tempo. Não é, contudo, responsabilidade tua. É minha, é minha esta felicidade. Perco o medo novamente, perco o pudor. Redescubro meu talento e abro as pernas para que todas as palavras sejam sentidas corretamente.
Eu ria, como não ria fazia muito tempo.
Quero que retornes? Não sei, durante alguns momentos, quero. Noutros, penso ser, assim, uma história mais interessante. Ou, por outro lado, que podes deixar de me entreter e eu, de te admirar.
Se desejo que retornes, em algum momento terei alguma idéia a respeito disso.
Sei, apenas que, agora, parece-me tanto mar e, ao mesmo tempo, tão pouco mar.
Afinal, quanto mar?
Agarro-me com força ao teu corpo, ainda, em pensamento. Se fôssemos franceses, eu poderia dizer "Moi, je t'aime". Mas não somos e, nesta situação, seria uma afirmação completamente absurda. Te desejo, é uma verdade, deus sabe quais são as outras.
Na água quente imagino-te do outro lado, como se fosse, todo aquele mar, tão pouco, tão pouco mar.
Por que, agora, ocupo-me tanto deste mar?
Wednesday, July 18, 2007
Ele ordena que tome um banho, arrume as gavetas, distraia-se com qualquer coisa enquanto ele mesmo não pode cumprir esta função. Você obedece pois é o melhor para você. Ele diz que então, quando chegar, estará com você e que, nestas condições, você estará bem, pois ele, ele fará você ficar bem. Você acredita porque é verdade. Ele fala, como se narrasse uma história conhecida, a história de todos os amantes, e fala sobre você, como se fosse o único a descer tão fundo até os limites da sua felicidade. Ele conhece sua fúria, chama por ela para que cavalgue esta fera sangüinária pois sabe, como se fosse a própria fera que, sobre ela, você é a imperatriz de todos os destinos. E ele sabe - e é esta a coroação do amor por você - que você só existe vitoriosa e que esta apoteose dos sentidos faz de você o lado de dentro do lado de fora dele.
O tempo não existe. Os seus olhos ainda são da mesma cor dos meus.
As nossas transformações são boas, e você não tem mais tanto medo delas. A melancolia provocada pela ausência da beleza apavorante das flores é a fortaleza dos frutos. Não é tão belo, mas sobrevive a tudo, morre e refaz-se no instante, um vislumbre da eternidade.
O tempo não existe, você mesmo o dizia.
E se você me instrui sobre estes procedimentos, eu os sigo, pois acredito em você, que acredita em mim. Você me instrui e eu sinto.
Ela ruge com os pelos eriçados diante do grande abismo e, apenas livre, correrá o suficiente para tomar o impulso necessário para levá-la ao outro lado.
O tempo não existe. Os seus olhos ainda são da mesma cor dos meus.
As nossas transformações são boas, e você não tem mais tanto medo delas. A melancolia provocada pela ausência da beleza apavorante das flores é a fortaleza dos frutos. Não é tão belo, mas sobrevive a tudo, morre e refaz-se no instante, um vislumbre da eternidade.
O tempo não existe, você mesmo o dizia.
E se você me instrui sobre estes procedimentos, eu os sigo, pois acredito em você, que acredita em mim. Você me instrui e eu sinto.
Ela ruge com os pelos eriçados diante do grande abismo e, apenas livre, correrá o suficiente para tomar o impulso necessário para levá-la ao outro lado.
Friday, July 06, 2007
Eu leria Sartre apenas daqui a um ano, quando me fosse novamente forte e impressionante para você. Nós riríamos desta situação tola e sua perna esquerda me imprensaria as costelas. Eu vasculharia com os dedos os seus cabelos para soltá-los. Em algum momento, alguns minutos após tudo isso, eu o olharia sem forças, do alto, até dissolver. Até ter fome, e saciar a sua sede sempre insaciável.
Estes eram os nossos planos.
Ainda são os meus.
Estes eram os nossos planos.
Ainda são os meus.
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